Podemos estar livres para ir e vir, fazer escolhas e conduzir nossa rotina e, ainda assim, permanecer aprisionados.
Não por grades visíveis, mas por medos, culpas, ressentimentos, cobranças e histórias que repetimos silenciosamente dentro de nós.
Ao refletir sobre as prisões mentais apresentadas pela psicóloga Edith Eva Eger em seu livro A liberdade é uma escolha, uma obra que, aliás, recomendo muito, chama minha atenção a profundidade de uma mulher que sobreviveu aos horrores do Holocausto e que, aos 92 anos, compartilha o que aprendeu ao longo de toda uma vida sobre o poder de libertar a mente.
A autora nos mostra que nem sempre podemos escolher o que nos acontece, mas podemos trabalhar a maneira como responderemos ao que aconteceu.
Essa ideia não diminui a dor nem sugere que basta pensar positivo. Algumas experiências deixam marcas profundas e precisam ser acolhidas, compreendidas e elaboradas.
A liberdade interior não acontece pela negação do sofrimento, mas pela possibilidade de não permitir que ele determine, para sempre, quem somos e como viveremos.
Quando o passado continua comandando o presente
Uma das prisões mais difíceis de perceber é aquela construída pelas experiências passadas.
Mesmo quando uma situação já terminou, podemos continuar vivendo emocionalmente dentro dela. Repetimos conversas, imaginamos o que poderíamos ter feito, revivemos injustiças e permanecemos ligados às pessoas ou aos acontecimentos que nos feriram.
O passado não pode ser alterado, mas a relação que mantemos com ele pode ser transformada.
Isso não significa esquecer, justificar ou aceitar aquilo que foi injusto. Significa reconhecer que permanecer preso à dor também pode impedir a construção de uma vida diferente.
Enquanto aguardamos que o outro reconheça o erro, peça desculpas ou repare o que fez, podemos acabar entregando a essa pessoa o poder de determinar a nossa paz.
Libertar-se é começar a recuperar esse poder.A autocompaixão como caminho de liberdade
Para mim, um dos caminhos para suavizar a cobrança e transformar a relação com o passado é a autocompaixão.
Ter compaixão por nós mesmos é olhar para a nossa história com amor e gentileza, mesmo quando as coisas não saíram como planejávamos. É reconhecer que o erro, o medo e o cansaço também fazem parte do movimento natural da vida.
Olhar para o passado com os recursos de hoje
Revisitamos escolhas, erros e momentos difíceis com o olhar que temos hoje, esquecendo que, no momento em que fizemos determinadas escolhas, talvez estivéssemos fragilizados, com medo, confusos ou apenas tentando sobreviver emocionalmente.
Não se trata de negar os erros, fugir da responsabilidade ou justificar atitudes que precisam ser reconhecidas. Trata-se de compreender que somos humanos e que tomamos decisões a partir dos recursos emocionais que possuíamos naquele momento.
Da condenação à compreensão
Quantas vezes nos condenamos por não termos percebido antes, por termos permanecido em uma situação, por não termos conseguido dizer não ou por termos escolhido um caminho que, mais tarde, nos trouxe sofrimento?
Talvez seja importante substituir a pergunta:
“Como eu pude fazer isso?”
Por uma pergunta mais acolhedora:
“O que estava acontecendo comigo naquele momento?”
Essa mudança de olhar não apaga o passado, mas pode transformar a forma como nos relacionamos com ele.
Em vez de permanecermos presos à culpa e à condenação, começamos a compreender nossas dores, nossas necessidades e os limites que tínhamos naquele período.
Reconhecer que hoje seria diferente
A autocompaixão nos permite reconhecer:
“Hoje eu faria diferente.”
Mas também nos ajuda a dizer:
“Naquele momento, fiz o que consegui com os recursos que eu tinha.”
Gentileza também é responsabilidade
Quando trocamos a cobrança excessiva pela compreensão, algo dentro de nós começa a se abrir. O peso diminui, o corpo relaxa e encontramos mais espaço para aprender com o que aconteceu, sem transformar um erro ou uma escolha em uma sentença para toda a vida.
Ser gentil consigo mesmo não significa desistir de mudar. Pelo contrário, é justamente quando deixamos de nos punir que conseguimos assumir nossa história com mais consciência e responsabilidade
Libertar-se é recuperar o poder sobre a própria história
A liberdade interior também passa por esse movimento: deixar de ser o nosso próprio juiz implacável e aprender a ser uma presença acolhedora para nós mesmos.
Talvez não possamos mudar aquilo que vivemos, mas podemos escolher não continuar nos ferindo por causa disso.
Não podemos apagar determinadas experiências, mas podemos construir uma nova relação com elas. Podemos reconhecer o que aconteceu, acolher a dor, compreender nossas escolhas e decidir que o passado não continuará conduzindo sozinho o nosso presente.
A liberdade não está em negar a própria história. Está em conseguir olhar para ela sem permanecer aprisionado dentro dela.
E, algumas vezes, a porta de uma prisão mental começa a se abrir quando conseguimos olhar para quem fomos e dizer:
“Eu compreendo você. Eu acolho a sua história. Agora podemos seguir de uma forma diferente.”
Você consegue identificar alguma prisão mental que ainda influencia suas escolhas?
Talvez olhar para essa história com mais autocompaixão seja o primeiro passo para construir uma relação diferente com o passado.
Caso sinta que chegou o momento de se libertar de padrões que ainda causam sofrimento, entre em contato comigo para agendar uma consulta.
Margareth Gondim
Psicóloga | CRP 08/45597


